Harriet Stowe - A Cabana do Pai Tomás, polêmicas e guerra

 

Harriet Elisabeth Beecher Stowe nasceu em 14 de junho de 1811, em Litchfield, Connecticut, em uma família extraordinariamente importante na vida intelectual e religiosa dos Estados Unidos, e a fé cristã seria fundamental tanto para sua personalidade quanto para sua literatura. Um período decisivo de sua vida ocorreu em Cincinnati, Ohio, onde viveu de 1832 a 1850. Cincinnati ficava às margens do rio Ohio, exatamente diante do estado escravista do Kentucky. A cidade era, portanto, um ponto de contato entre os Estados livres do Norte e os estados escravistas do Sul. Harriet chegou a atravessar o rio e visitar o Kentucky, onde teve contato direto com a realidade da escravidão. Posteriormente, histórias contadas por pessoas que haviam fugido da escravidão também forneceriam material para seu romance.

Harriet escreveu cerca de 30 livros, além de inúmeros artigos, ensaios e textos curtos, ao longo de uma carreira literária de aproximadamente cinco décadas, mas ficou mundialmente famosa por “Uncle Tom's Cabin”, publicado no Brasil como “A Cabana do Pai Tomás”, um dos romances mais influentes da literatura americana do século XIX. O acontecimento político que mais estimulou Harriet a escrever o livro foi a aprovação do “Fugitive Slave Act” de 1850, a Lei dos Escravos Fugitivos que obrigava as autoridades dos estados livres a colaborar na captura e devolução de pessoas escravizadas que haviam escapado. Harriet ficou profundamente indignada. Começou então a escrever uma história que apresentasse ao público, de maneira emocional, aquilo que os discursos políticos muitas vezes não conseguiam transmitir: a destruição de famílias, a violência e a desumanização provocadas pela escravidão.

O romance começou a ser publicado em capítulos em 5 de junho de 1851, no jornal abolicionista “The National Era”. Foram 40 capítulos, publicados ao longo de aproximadamente dez meses. Em março de 1852, o texto foi publicado em forma de livro, em dois volumes e o livro tornou-se um fenômeno.

O personagem central é Tom, um homem escravizado profundamente religioso, bondoso e digno. Sua vida muda quando seu proprietário, por dificuldades financeiras, decide vendê-lo. Tom é separado de pessoas que ama e passa pelas mãos de diferentes proprietários, sendo finalmente vendido ao brutal Simon Legree. Paralelamente, o livro acompanha outros personagens, especialmente Eliza, uma mulher escravizada que foge para tentar impedir que seu filho seja vendido. A narrativa mistura aventura, drama familiar, religião e denúncia social. E essa combinação foi fundamental para seu sucesso.

Hoje, a expressão “Uncle Tom” (Tio Tom), nos Estados Unidos, pode ser utilizada de maneira pejorativa, para designar uma pessoa negra considerada excessivamente submissa aos brancos. Isso é bastante diferente da maneira como Harriet Beecher Stowe originalmente concebeu Tom. Tom não é covarde. Pelo contrário, sua resistência é apresentada principalmente através de sua fé, dignidade e recusa em colaborar com a violência de seu opressor. O significado negativo associado posteriormente ao termo “Uncle Tom” surgiu, em grande parte, das inúmeras adaptações teatrais do romance e das caricaturas posteriores do personagem.

“A Cabana do Pai Tomás” não foi simplesmente um best-seller, foi uma bomba política. Muitos abolicionistas consideraram o livro uma poderosa arma contra a escravidão. Já muitos defensores da escravidão acusaram Stowe de exagerar a violência, apresentar uma visão distorcida do Sul, inventar situações, difamar os proprietários de escravos e interferir na política nacional. Harriet publicou outro livro para defender o romance “A Key to Uncle Tom's Cabin” (Uma Chave para A Cabana do Pai Tomás), onde reuniu relatos, testemunhos, documentos legais e outras fontes para mostrar que os acontecimentos descritos em seu romance tinham fundamento na realidade.

Uma das histórias mais famosas a respeito de Harriet diz que, quando Abraham Lincoln a recebeu na Casa Branca, em 1862, teria dito: “Então esta é a pequena senhora que causou esta grande guerra?” A frase é famosa, mas não há certeza histórica de que Lincoln realmente tenha dito isso. De qualquer maneira, a frase demonstra o tamanho da reputação que o livro adquiriu. É exagero afirmar que “A Cabana do Pai Tomás” causou a Guerra Civil Americana, mas é perfeitamente razoável dizer que o livro contribuiu enormemente para aumentar a oposição à escravidão no Norte e para radicalizar o debate entre Norte e Sul .




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