Emicida - Amoras: a poesia do rap para crianças
Emicida é o nome artístico de Leandro Roque de Oliveira, nascido em 17 de agosto de 1985, na cidade de São Paulo. É rapper, compositor, produtor musical, escritor e apresentador, e se tornou uma das figuras mais importantes do hip-hop brasileiro. O nome artístico vem de uma brincadeira com a palavra “MC” e a ideia de “homicida”: nas batalhas de improvisação, Emicida ficou conhecido por “matar” os adversários com suas rimas. Posteriormente, o próprio artista passou a reinterpretar o nome como uma sigla ligada à ideia de “Enquanto Minha Imaginação Compor Insanidades Domino a Arte”. Emicida começou a ganhar notoriedade nas “batalhas de MCs” da região central de São Paulo. A capacidade de improvisar e construir rimas rapidamente tornou-se uma de suas marcas. Suas letras frequentemente utilizam referências literárias, filosóficas e históricas, algo que ajudou a aproximar o rap de públicos que normalmente não acompanhavam o gênero.
“Amoras”(2018), é o primeiro livro infantil de Emicida, e é particularmente interessante porque nasceu primeiro como música e depois virou livro. A obra é baseada na canção “Amoras”, que fazia parte do álbum “Sobre crianças, quadris, pesadelos e lições de casa”, de 2015. A narrativa é extremamente simples: um pai conversa com sua filha durante um passeio entre amoreiras. O pai observa as amoras e comenta sobre sua beleza e doçura. A menina então estabelece uma associação entre a cor escura das frutas e a própria pele. É justamente dessa pequena descoberta que nasce o significado maior da obra: a criança aprende a reconhecer beleza, valor e orgulho em sua própria identidade. O livro, portanto, trabalha temas como identidade, autoestima, negritude, representatividade, relações familiares, diversidade, combate ao racismo e valorização da cultura afrodescendente.
A personagem nasceu de uma experiência real de Emicida com sua filha Estela. A situação que deu origem à canção era extremamente cotidiana: pai e filha estavam juntos, perto de uma amoreira, quando surgiu a conversa sobre as frutas. A partir de uma observação aparentemente banal, a criança chega a uma descoberta sobre si mesma. Isso explica uma das grandes qualidades do livro, ele não apresenta uma aula sobre racismo para a criança; ele apresenta uma situação afetiva que permite à própria criança construir uma percepção positiva sobre sua identidade. E talvez esteja justamente aí a grande força literária de Emicida, ele pega uma situação absolutamente simples — um pai e uma filha olhando frutas — e transforma-a em uma descoberta sobre identidade e pertencimento.
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